Medo
Como poderia saber que algo assim poderia acontecer? Anos se passaram de estudos, incansáveis e supérfluos anos de estudos. Aquele era o mais reconhecido e renomado Instituto mágico. Minha última esperança.
Todos os dias lia e relia, em vão, os tomos, procurando uma forma de que a magia fluísse em minhas veias. Minha mãe era a feiticeira mais poderosa que minha cidade natal poderia conhecer. Meu pai, um simples ferreiro, ficou encantado na simplicidade em meio aquele poderio. No entanto, quando nasci, não herdei nada, nem uma fagulha de sua essência. Também não me importava com isso até o dia de sua morte, quando decidi honrá-la.
Não havia um dia que não estivesse trancafiado na biblioteca do castelo. Ente as aulas e enquanto o sol permanecia no céu, eu decorava cada capa e lia páginas e mais páginas. Não poderia existir ali algum mais dedicado e frustrado.
Certo dia, enquanto sondava alguns livros e revisitava trechos já lidos, notei um livro, tal qual nunca vira antes, deixado desalinhado em cima de uma mesa. Era grande, como um grimório. Sem perceber o mundo ao meu redor admirei, com certa relutância, aquela capa negra perfeitamente costurada.
Quase pulei com o susto. Alguém colocando sua mão em meu ombro me deixou apreensivo.
− O que faz, meu jovem aprendiz púrpura?
Aquela voz me fez virar, soltando o livro para que caísse de volta a mesa. Poucas coisas me deixavam irritado, uma delas, era a forma e o tom de voz que as pessoas usavam a se dirigir a mim.
−Quantos anos mais demorará até que se lembre meu nome, Lorde Gustav? Estou apenas a busca de alguns livros.
O susto fora tanto que, nem me dei conta da falta do som abafado do tomo que soltara em destino a mesa.
−Ah… Sim, Orion? Não é mesmo? Sempre me esqueço. Continue estudando, precisara mais do que livros empoeirados para conseguir um resultado… ordinário em minhas aulas.
Sentia um ódio crescente por ele, sabia que nutria desgosto pela minha espécie. Antes mesmo se terminar sua fala já estava de costas e caminhando para fora.
Me virei de volta a mesa a procura do livro, sem ainda me dar conta a ausência do som que deveria ter produzido. Não estava lá. Como algo daquele tamanho desapareceu sem deixar vestígios. O procurei em cada prateleira sem sucesso antes de voltar para os meus aposentos.
−Esses humanos amaldiçoados, se sentem superiores as outras raças por estarem em maior número, para mim eles são uma praga.
Praguejei baixinho sentado em minha cama. Todos os dias, quando me deparava com Lorde Gustav antes de retornar para meu quarto, sentia uma repulsa crescente pelos humanos. O único motivo que não me deixava abandonar este lugar e suas aulas era a vasta biblioteca e o poderio do Lorde, que se igualava a minha falecida mãe. Mesmo que algumas vezes me perguntava se valia apena me sujeitar a tal.
Um segundo ensaio ao terror me fez levantar. La estava ele, em cima da minha mesa de estudos. O livro. Sua capa estava diferente, mas tinha de ser ele. Seu tamanho e sua perfeita costura. Onde antes estava vazio e limpo, uma gravura feita a fogo. O número seis, mal esboçado junto a um par de chifres recurvados. Em seu interior, suas folhas estavam virgens, nem mesmo uma gota de tinta tocara naquelas páginas. Receoso, escondi atrás da cabeceira.
Três dias se passaram após o ocorrido. Não ousei reavivar meu interesse por tal alfarrábio. Como se nada tivesse acontecido permaneci em minha rotina de estudos. Ao quarto dia, na porta da biblioteca estava pregado um anúncio, noticiando um roubo. Um importante exemplar particular de Lorde Gustav fora afanado e uma generosa recompensa seria entregue a quem o encontrasse, seguida da devida punição ao gatuno.
Assustado corri para meus aposentos e ele estava lá, em cima de meus lençóis. Como sairá de trás da cabeceira? Será que ele era o tomo roubado? Não poderia simplesmente devolvê-lo, como explicaria a forma que chegou em minhas mãos? Ainda mais com o preconceito que o Lorde nutria por mim. Tentei novamente o esconder atrás da cabeceira.
No dia seguinte tentei retomar minha rotina de estudos, mesmo com o temor crescente em meu peito. Mas algo não estava correto, os corredores do castelo estavam vazios. Vazio de mais para uma caça a um ladino.
Atravessei o portal adentrando a biblioteca, sem notar a ausência do anúncio antes pregado a porta. La estava ele. Sentado em uma cadeira não muito distante e de rente a porta.
−Orion…Orion…Orion… estava aguardando sua chegada. Senti sua falta aqui ontem. Onde estava?
Não conseguia responder. Meu coração acelerou e meu corpo enrijeceu.
− O que aconteceu?… Um corvo comeu a sua língua? − Queria correr, mas a ansiedade impedia meus movimentos, − Ficou sabendo que um dos meus…preciosos livros fora roubado? Estamos a procura em todos os aposentos do castelo.
Minha respiração estava desregulada e acelerada quando um baque me fez perder o foco.
−Lorde Gustav, encontramos o livro. Estava no aposento do…
Não queria me virar, sabia o que me aguardava.
−Ora, ora, eu sabia. − Dizia se aproximando de mim, − Sabia que nunca deveria confiar em alguém assim… Como você. Pois bem, levem-no, levem este…Demônio para o calabouço. Lá ele terá sua devida punição.
Ass: Raz (Sick)
Autor da imagem JJcanvas



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